Desistir não é uma opção

 

“Vocês já rasgaram dinheiro algum dia na vida?”, com essa frase iniciei a apresentação que me daria o terceiro lugar no evento maker hacklab com uma startup produtora de lixeiras automáticas que gera recompensa por item depositado e que só possuía um integrante no momento, EU! Mas antes de tudo preciso contextualizar vocês, leitores. O maker hacklab é um evento que acontece anualmente na unifei, promovido pelo Centro de Empreendedorismo da UNIFEI e outros parceiros. Neste ano ele aconteceu entre os dias 19/05 e 10/06, devido a greve dos caminhoneiros, mas normalmente acontece apenas durante uma semana, e esse acréscimo de tempo foi muito importante pra mim, mais pra frente vocês irão entender o porque.

O evento é dividido da seguinte forma, no primeiro fim de semana acontecem várias palestras de motivação, cases de sucesso, dinâmicas de quebra gelo, escolha das ideias, montagem do plano de negócio das startups. Desta forma, é esperado que as equipes terminem o domingo com pelo menos o plano de negócio pronto, para que durante a semana as equipes validem a ideia, iniciem a montagem do MVP (Minimum Viable Product – Minimo Produto Viável) e aproveitem os workshops, para que no segundo fim de semana apenas trabalhem na apresentação do pitch e terminem os ajustes finais do MVP. Minha equipe, ao contrário das outras terminou o primeiro fim de semana sem uma ideia fechada, com números que “não fechavam a conta”e muitas questões a serem resolvidas. Durante a semana a primeira notícia, um integrante do grupo saiu, por motivos pessoais, eramos 7, agora eramos apenas 6.
Durante a primeira semana tiveram vários workshops e mentorias para ajudar no processo de validação e montagem do MVP, mas parecia que quanto mais andávamos pra frente, regrediamos 5 passos na ideia e foi assim a semana toda, até que na sexta-feira daquela semana, em meio a greve dos caminhoneiros, veio a noticia: o segundo fim de semana de evento foi adiado para o fim de semana do dia 10/06, o primeiro pensamento que veio à cabeça foi o seguinte “beleza, temos mais duas semanas aí pra validar e montar o protótipo, então vai dar quase que pra montar a empresa inteira”. Enquanto o pessoal de business cuidava da parte de validação, uma parte dos dev’s cuidava do site e eu, o dev que na verdade tem sangue de maker, fiquei responsável pela parte do hardware do MVP. Aproveitei a greve e o período sem aula pra pegar o material pra começar o projeto e dar um gás, já que teria que aprender muito pra fazer, pois o único projeto com arduino que eu tinha feito na vida era um jogo semelhante ao passa ou repassa.
Na semana do feriado de corpus christi, aproveitando a ausencia de aula, consegui montar o hardware todo do projeto, funcionando 100%, porém sem nenhuma estrutura, a alma estava pronta, faltava o corpo do produto. Além disso, conversando com os integrantes do grupo, muitos deles estavam desanimados com o projeto, pois voltaram pra suas respectivas casas, cada um tinha suas tarefas particulares pra realizar, inclusive eu, então o projeto foi ficando de lado, com uma pesquisa de vez em quando, mas nada validado.

Semana do ultimo fim de semana do evento, mais três pessoas falam que não vão conseguir participar do segundo fim de semana por motivos pessoais, já que tinham compromissos que não dariam pra ser adiados, ou ainda, não estariam em Itajubá naquele fim de semana. Então, fim de semana do evento chegando, nada validado, muitas ideias na cabeça ainda, nenhum plano de negocio escrito, nada de estrutura da lixeira automatizada e começa a aparecer aquela grande pergunta:”Continuar, ou não ideia?” e a resposta veio quando lembrei de um dos pão de cast aqui do site, que alguém disse:”O feito é melhor do que o bem feito”, assim comecei a pensar na estrutura da lixeira, que a principio seria de madeira compensada, mas por dificuldades com o fabricante o máximo que consegui foi usar uma caixa que guardava meus livros no armário, uma caixa de leite vazia que estava em cima da geladeira, uma cola quente emprestada de um amigo do meu irmão, um rolo de fita dupla face, uma faca de cortar pão e uma tesoura. Assim, usando toda a habilidade manual que eu adquiri em toda minha infância mexendo com artesanato, mas essa parte da história fica pra outro texto, consegui montar a caixa para armazenar as latinhas, que reconhecia quando o usuário inseria uma latinha, contabilizava as latinhas e reconhecia o usuário através de um cartão RFID. Protótipo pronto na sexta feira de noite, funcionando, comunicando com sistema online, site quase pronto e nada de ideia validada, nem nada fechado.

Sábado de manhã, chegando no evento, fico feliz, mas ao mesmo tempo preocupado, a priori, minha equipe era a única com um protótipo funcional, porém não tínhamos nenhuma ideia fechada e só estávamos eu e mais um cara da equipe, logo percebemos que seríamos só nós mesmo. Passamos o dia todo fazendo pesquisa, ouvindo os mentores e tentando lapidar a ideia, para caber em uma apresentação de pitch e tentar impressionar os juízes, porém, no fim da tarde, já cansados de pesquisar, desmotivados e já levantada a ideia de desistir de vez do evento, alguns dados começaram a surgir, então eu e minha dupla combinamos de ir embora e voltar mais tarde pra pré banca de pitch e trabalhar na apresentação. Porém olho no celular e leio a mensagem de que ele estava desmotivado e que não iria retornar mais naquele dia e que a partir daí seria só eu e minha “euquipe”.

Já que estava sozinho a partir daí, tive que me virar, com a ajuda dos mentores, consegui estruturar por cima um plano de negocio, com alguns poucos valores estatisticos e possibilidades dificeis de acontecer, para colocar na apresentação do pitch, pra mostrar pra pré banca e com isso descobri que teria que melhorar muito, além disso, os mentores não me deixaram madrugar trabalhando, pois como estava sozinho era necessário descansar pra trabalhar no outro dia, então voltei pra casa e nem mexi em nada de apresentação, a única coisa que consegui pensar é se valeria a pena, já que estava sozinho, todos grupos estavam com ideias validadas e mexendo em seus prototipos.
Na manhã de domingo, acordei bem cedo e cheguei as 7:30 no evento, haviam poucas pessoas acordadas, já que a maioria tinha madrugado trabalhando. O trabalho começou cedo, com a ajuda do André Hitoshi pra fazer a apresentação, que aliás, se não fosse ele, não haveria apresentação e com ele também pude perceber o quanto com matemática dá pra chegar em valores de lucro pra empresa. Naquele dia houve muito trabalho, já não estava confiante de mais nada, tinha dados que consegui através de matemática, mas a única coisa que eu queria era terminar tudo, chegar no fim, mostrar o quanto eu me dediquei e apresentar uma ideia no mínimo plausível.

Depois de fazer a apresentação do pitch para alguns mentores, descubro que não estou nada pronto pra apresentação, tenho ideias, mas os slides estão confusos e a forma da apresentação está vaga e com isso mais um ponto para o nervosismo. Então na tarde do ultimo dia, nos 40 minutos do segundo tempo, peço ajuda pra Ana Raquel, uma das mentoras que estava lá e rainha dos pitchs, pra me ajudar na apresentação e a lapidar o pitch.

Por fim, chegou a grande hora das bancas, na banca de hardware, as mesas das outras equipes lotadas de gente, com seus protótipos e na minha mesa, só eu e minha caixa verde que pelo menos funcionava e mostrava alguns gráficos na tela. E neste ponto volto na frase do começo: “Vocês já rasgaram dinheiro algum dia na vida?”, que foi a frase de impacto que consegui arrumar pra tentar ao menos chamar atenção dos juízes. No fim do evento, após todos apresentarem os pitchs, muito bons por sinal, com várias ideias validadas, dados reais de lucro futuro e eu com minha apresentação com leis e dados plausíveis, comecei a guardar minhas coisas, desmontar o produto, já que tinha certeza que nas circunstancias atuais, o único lugar que me restava era o último lugar e um pacote de experiencias. Porém, no primeiro premio a ser anunciado (terceiro lugar), fui surpreendido com meu nome na premiação.

Além desse enorme texto, deixo a seguinte lição: nunca desista, DESISTIR NÃO É UMA OPÇÃO, por mais que esteja sozinho, vá e dê seu melhor, que você será recompensado. Só tenho a agradecer a todos mentores, participantes e minha família por todo apoio, sem vocês eu não teria conseguido nem terminar o sábado do segundo fim de semana.

 

 

Texto por Marcelo Magalhães

Deixe um comentário!!!