FACA NA TÊMPERA

 

Alinhar o conhecimento teórico e prático nos dias de hoje é extremamente necessário, o sistema de ensino cria pessoas cada vez mais alienadas, que aprendem a apertar botões, além de que o sistema de avaliação com provas teóricas é totalmente falho. O esquema é o seguinte, você tem uma prova numa terça-feira, um mês antes você pensa: “não tenho conhecimento suficiente para fazer exercícios, vou esperar mais um pouco”; algumas aulas se passam, e faltando duas semanas você pensa “vou fazer alguns exercícios”, você dá uma olhada, desanima e faz as diversas coisas que te deixam feliz, e deixa um tempinho de lado; faltando uma semana você diz “acredito que seja um bom momento para estudar”, sem chance, você arruma distrações para cabeça, como ler um livro, assistir uma série; aí como fica? Faltando dois dias para a prova, no domingo, você se preocupa, olha para as questões e pensa “mano, por que eu procrastinei tanto? Ainda tenho uma festa para ir, foda-se a prova”, e assim você assume a derrota; na segunda-feira você está de ressaca, vai para as aulas estando cansado, a solução que resta: “vou virar a noite estudando para aprender essa matéria, pronto”. É assim que você acaba com sua formação, você decora umas equações, umas frases, e assim você faz a prova e passa na matéria. A pergunta é: quando você sair da faculdade o que você vai saber? Acredito que não seja tão útil tudo isso que você fez.

Fazer parte de um projeto especial me trouxe muito conhecimento prático, e lá foi onde aprendi a aproveitar TUDO o que lhe é oferecido. Desde contatos e pessoas mais experientes das quais eu posso usufruir, quanto realmente absorver algo com aulas da graduação. Um exemplo singular disso foi a matéria de Estrutura e propriedades dos materiais, na qual aprendi muito sobre um assunto importante da área metalomecânica que são os aços e seus tratamentos térmicos. Nessa matéria temos aulas laboratoriais, um complementar às aulas teóricas, e em uma dessas aulas temperamos uma peça de SAE 4340, foi interessante ver como tudo funciona e ter uma noção básica do que se precisava fazer num caso de têmpera.

Fazer parte de projeto de extensão me colocou em situações das quais eu precisava tomar decisões importantes e não hesitar em determinados posicionamentos. Uma dessas situações foi quando precisávamos de uma chapa de aço fina, totalmente rígida e que possuísse determinada tenacidade. A solução era clara, têmpera.

Montamos todo nosso aparato para isso, churrasqueira, carvão, compressor de ar, óleo, água, imã e um alicate. A decisão a ser tomada água ou óleo? Garantir dureza e correr o risco de trincar a peça ou não conseguir dureza e ter desperdiçado horas de serviço? Tínhamos material apenas para uma peça, melhor não correr riscos. Resultado: óleo.

Procedimento padrão das aulas laboratoriais, pré-aquecimento, encharque, verificação de condição ideal para a têmpera, a têmpera, verificação de dureza e revenimento. Com nossos recursos é importante frisar que duas etapas citadas são algo um pouco diferentes do processo laboratorial. A verificação da condição ideal para têmpera é o processo de averiguação da condição de austenitização da peça, austenitização é meio que o ponto de se fazer a têmpera, é feita da seguinte maneira, prende-se um imã num alicate e com todo cuidado se encosta na peça, caso o imã atraia a peça, ainda não está na hora, a temperatura não foi alcançada. No laboratório se consegue prever isso pela temperatura da peça, então com termopares que conseguem nos informar a temperatura do forno, diferente de uma churrasqueira. A verificação da dureza para nós é apenas possível estimando-se, na prática se mede a dureza da peça no durômetro, um equipamento que não possuímos.

Estávamos enfrentando um problema momentâneo, precisávamos da peça o mais rápido possível, e não tínhamos muito óleo, então fizemos o seguinte, usamos um recipiente que cabia exatamente o tamanho da peça, para aproveitar melhor o óleo, porém ainda não preencheu todo o volume do recipiente. O resultado foi: completa com água. Feito.

Peça austenitizada, pegamos cuidadosamente é já mergulhamos no recipiente, foi interessante ver metade do fluido que se encontrava no recipiente apenas evaporar em poucos segundos. A solução tinha sido inteligente, porém a decepção ainda estava a vir. Tiramos a peça do recipiente e já identificamos que se encontrava totalmente empenada. Foi triste ver todo o trabalho feito indo por água a baixo. Pelo que aprendi nas aulas não era para ter acontecido o empenamento, mas como nada é perfeito, tínhamos que encontrar outra solução, revenimos durante um bom tempo e depois desempenamos com muito cuidado em nossas prensas de fusos, famosas morsas.

O resultado foi satisfatório, foi possível usar a peça, mas seria bom ter tido experiências anteriores, o importante foi que em um episódio futuro seria fácil identificar os erros, como a quantidade de fluido para têmpera, preparação do material, entre outros detalhes que causam grande diferença no resultado final.

 

 

Texto por Felipe Duarte

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