Para onde vai a corrente?

 

O sentido convencional da corrente, durante muito tempo, foi usado em nossa literatura. Entretanto, tem aparecido alguns livros e artigos onde o sentido adotado é outro: o sentido real baseado na movimentação dos elétrons nos condutores.

Qual o sentido adotar? Qual o correto?

Imagine você se ao ler o jornal pela manhã, deparasse com a seguinte notícia: “A partir de amanhã, todas as mãos de direção no centro da cidade serão invertidas.”

– Que absurdo! – você dirá indignado.

Você se indignou porque a mudança no trânsito vai contrariar seus hábitos e você vai ter que aprender todos os caminhos que conhecia novamente. O mesmo pode ocorrer com você, se for um estudante de eletrônica e topar com um professor que, sem aviso prévio, resolve mudar o sentido da corrente.

– Mas isso pode acontecer?

Sim, porque existe dois sentidos possíveis para a análise da corrente: O sentido convencional e o sentido real. No sentido convencional se ligarmos uma bateria a uma carga qualquer, a corrente circula do pólo positivo para o pólo negativo da bateria. No sentido real da corrente, ela circula do negativo para o positivo. (Figura 01.)

 

Figura 01

O sentido convencional da corrente.

Quando se começou a estudar a corrente elétrica ( por volta do século XVIII), pouco se conhecia da natureza da matéria, mas já se sabia algumas coisas sobre a eletricidade e o fluxo de corrente. Sabia-se que existiam dois tipos de “eletricidade”: uma positiva, outra negativa, e que havia um fluxo elétrico entre as duas, até que houvesse um equilíbrio de cargas. Como os primeiros cientistas desconheciam qual a causa do fluxo desta corrente, disseram que ela fluia do pólo positivo para o pólo negativo, hipótese que lhe pareceu mais lógico na época. Como não houve desacordos (pelo menos não em registros), ficou convencionado (daí o nome de corrente convencional) que o sentido da corrente seria esse.

Isso foi favorável na época, porque se poderia continuar a estudar a eletricidade, sem procurar exaustivamente pela causa da corrente, para compreender estes fenômenos.

Entretanto, um belo dia descobriu-se que os elétrons eram os responsáveis pela corrente elétrica, em um condutor e que eles circulavam do negativo para o positivo, exatamente ao contrário da convenção. Mas, por comodidade, resolveram manter esta convenção, e ela se manteve na maioria dos livros de eletricidade. Eu disse na maioria mas não na totalidade…..

O sentido real da corrente

Provavelmente desde que se descobriram que os elétrons eram responsáveis pela corrente em um condutor, pensou-se em mudar o sentido da corrente elétrica. Essas tentativas não tiveram sucesso até os anos 60, quando apareceram, nos Estados Unidos, uma série de autores que optaram por essa inversão.

Surge agora um problema: como você que sempre viu a corrente indo do positivo para o negativo vai conseguir ler, sem se atrapalhar um livro que adota o sentido real? E se, pelo contrário, você aprendeu o sentido real da corrente e sem querer topa com um livro que utiliza o sentido convencional da corrente?

E, se o autor não mencionou o fato, achando que isso é de conhecimento de todos? (isso é mais frequente em autores que utilizam o sentido convencional).

Por que razão mudar de sentido?

Os argumentos dos defensores do sentido real é este: o sentido é real. Segundo eles, o sentido real torna a explicação da natureza da corrente elétrica muito mais fácil de ser entendida, evitando a tradicional confusão que ocorre, quando tentamos explicar que os elétrons se movem de um lado e que a corrente vai para o outro lado, e o uso de abstrações de difícil compreensão.

Entretanto, podemos encontrar um pequeno problema, justamente na simbologia dos transistores: quando um transistor está polarizado na configuração emissor comum, a seta de seu símbolo indica o sentido convencional da corrente (Figura 02).

 

Figura 02

 

Em outras palavras, simplifica-se de um lado e complica-se de outro.

Entretanto, os defensores do sentido real podem argumentar que a simplificação que conseguem é na base, quando se ensinam os fundamentos da eletrônica e qualquer ambiguidade deve ser evitada nessa fase. Quando se falarem em transistores os principais conceitos da eletricidade já estarão maduros nas cabeças dos estudantes, e esse tipo de ambiguidade pode ser facilmente contornada.

O argumento para não se mudar o sentido está baseado que na maioria dos livros de eletricidade, levam em conta o sentido convencional e que, além disso, os profissionais e professores de eletricidade que foram educados nesse sistema, deveriam ser treinados nessa nova teoria. Em outras palavras, é, segundo eles, muito trabalho para pouco resultado prático.

 

 

Escrito por Thales Nicoleti

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