Prática em situações críticas ou apenas gambiarra?

 

Um simples componente mecânico, como um eixo, pode facilmente acabar com seus dias de trabalho árduo. Como de praxe, estávamos nos preparando para uma competição e os problemas estavam a chegar. Com todas as peças na oficina, nos envolvemos na montagem do robô e tudo corria bem; mas, nem tudo é perfeito.

Nos primeiros testes, nenhum problema foi encontrado. Porém, depois de um tempo com algumas audácias necessárias, nos deparamos com um eixo empenado, a ponto de ser inutilizável para o resto da vida.

Colocamos no torno o eixo, e, observando a falta de concentricidade, pensamos: por que não tentar desempenar? Se ele deformou tão fácil, não deve ser difícil dar um jeito. Com um martelo e um pouco de cuidado, deixamos o eixo quase concêntrico. Já era possível usá-lo. Melhor do que nada. Não foi algo profissional, muito menos técnico, mas era o que tínhamos ao nosso alcance.

Já sabíamos a solução para o eixo não voltar a empenar: realizar uma têmpera, mas quão severa? Se o material do eixo fosse de baixo carbono, resfriar em água era a solução. Mas e se fosse de alto teor de carbono? Uma têmpera em água poderia causar trincas na peça. A resposta era clara: óleo.

Tínhamos 6 horas para fazer a têmpera de um eixo. Foi nesse momento que nos deparamos com o maior desafio: onde arrumar óleo para tal finalidade? Qual recipiente aguentaria 1000° C? Qual seria o combustível que nos forneceria calor para fazer uma peça chegar a tal temperatura? Outro fator que deveria ser considerado era o horário, simplesmente 1h da madrugada.

Um dilema passava por nossos pensamentos: vamos deixar de lado, como era possível arrumar tanta coisa em tão pouco tempo? E se der errado, o que vamos fazer? Pensando nesses fatores, demos início a usinagem de um segundo eixo.

As respostas tardaram, mas vieram. Simples, utilizamos óleo de cozinha, pois estamos apenas interessados em troca de calor, já que precisávamos de um líquido mais viscoso que a água. Recipiente, por que não uma churrasqueira? Combustível, carvão, porém com injeção de ar por meio de compressor, já que quanto maior quantidade de oxigênio mais rápido a queima.

Estava montado ali a base de operações, tudo pronto. Demos início, carvão e muito ar comprimido; depois de certo tempo, resolvemos já colocar o eixo para o encharque. Estimamos 20 minutos. Para certificar o ponto perfeito para a têmpera, colocamos um ímã na ponta de um metal e encostamos no eixo. Nada, nem sinal de magnetismo, estrutura cristalina CFC, no momento ideal para o resfriamento. Em poucos segundos, o eixo já estava submerso em um balde cheio de óleo; nesse momento, já não havia aço na cor rubra. Dá-lhe agitação, formação de bolhas no  esfriamento não causa uma dureza uniforme.

Já eram 5h da manhã e o primeiro eixo estava pronto. Demos início, então, na têmpera do segundo que estava sendo usinado. O mesmo procedimento foi feito, sem nenhuma modificação. Engraçado foi ver o pessoal sentir um cheiro atípico, já que não estávamos acostumados sentir cheiro de batata frita vindo de peças temperadas (o óleo de cozinha usado já estava fazendo aniversário de tão velho e usado).

Ver aquele eixo montado e funcionando no robô era nossa maior necessidade. Não restou tempo para montar, muito menos de testar ou até mesmo fazer um revenimento. Tudo já estava guardado a caminho da competição.

Aí, se dá início em outra história, de um ajuste com uso de muita criatividade e um artifício do século XXI, COLA QUENTE. Mas essa fica para uma próxima história.

 

 

Texto por Felipe Duarte

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