Precisamos falar sobre os “Super empreendedores”!

Não pretendo neste texto falar sobre os empreendedores de palco. Nos últimos anos, vimos bastante conversa madura sobre o assunto, catalisadas principalmente pelo fenômeno “Pesce”, certo?

Vamos lá: a base do pensamento empreendedor é pautada na análise das potencialidades de cada indivíduo e no reconhecimento de suas limitações, em uma avaliação crítica autopessoal constante ao longo de sua jornada. Por outro lado, com o empreendedorismo cada vez mais difundido, é muito comum encontrar alguns supostos “pontos fora da curva”, que subvertem a lei natural da vida e conseguem ter absolutamente todas as qualidades do mundo.

Convido vocês a um exercício rápido para identificarmos este fenômeno: passe 10 minutos em sua timeline no LinkedIn ou em qualquer outra rede profissional. Verá que é tempo suficiente pra encontrarmos diversos exemplares deste espécime “hiperinfladum curriculum sapiens”.

 

 

É curioso como temos a tendência em sempre focarmos em nossos pontos fortes, floreando os pontos fracos para deixar tudo com o devido garbo e elegância, num esforço de vender a própria experiência seguindo à risca a cartilha do “marketing pessoal”. É a contradição entre identificar seus limites e conhecer suas características mais favoráveis e, por outro lado, pintar um cenário de super empreendedor em busca de reconhecimento público.

Recém-graduado, vejo diversos colegas tornando-se profissionais-personagens ficcionais de si mesmo. A todo tempo, surgem novos “meninos e meninas do vale”, dentro das universidades, empresas e ONGs. Discursos bonitos, pouquíssimo conteúdo de fato. Transformam experiências de estágio em trabalhos de uma vida inteira. Um voluntariado internacional parece tão incrível que se aproxima ao trabalho de grandes figuras históricas na luta pelos direitos humanos. Cursos extracurriculares e treinamentos tornam-se em impressionantes especialidades. Fazendo um paralelo lúdico para ficar mais claro, o currículo destes empreendedores pode ser comparado facilmente com cartas de supertrunfo, numa batalha constante em mostrar todos os pontos fortes de cada atributo.

Há, quase sempre, um tom motivacional nos discursos desses empreendedores, que tentam se colocar como exemplos de jovens com o poder de mudar gerações, mindsets e cenários inteiros com sua própria narrativa. Desconfiem, amigos. Se a surra de diplomas e certificados é maior do que o conteúdo, desconfiem. Todos, ou quase todos, estudamos uma vida toda buscando menos superficialidade através das mais diversas teorias mas, na prática, acabamos abraçando papos inflados pelo puro poder da retórica.

Sejamos honestos: estamos todos inclusos neste mar de hipocrisia. Lutemos todos os dias por uma geração de militantes do empreendedorismo de conteúdo. Que tal essa nova bandeira, colegas?

Aos professores, um pedido: lembrem seus alunos de que a vida não se resume a um currículo. Aos profissionais, lembrem-se de que vocês, antes de tudo, são pessoas. Permitam-se trabalhar como voluntários, viajar, investir tempo em estudo, em novos negócios, em novas ideias apenas por necessidade. Simplesmente porque querem. Simplesmente por que não nos resumimos a trabalho. No final das contas, prefiro acreditar que o “sucesso profissional” depende do conteúdo, e não da forma.

 

 

Texto por Bruno Prudente

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